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Existe uma figura que sempre me chamou a atenção (será que por alguma semelhança?) em muitos ambientes em que frequento. Geralmente este tip...
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
A Serviçal
E a lua vinha dura e previsível anunciar a jornada. O odor de rosas se imiscuía ao gozo falso, farto e eclético da casa de shows. Rita rejeitava os olhos curiosos, afastava a fama de beleza fácil e cara. Firmeza no rosto para aguentar a batalha; suores, pêlos e putas. O coronel de sempre, o delegado passivo, a aristocracia nua e a freguesia ria e retalhava Rita, gargalhava. Enfim o sol, enfim o lar. Cássia Eller no som e os sacos de vômito testemunhavam a desgraça do mundo.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Presente de Grego
Há alguns anos fui presenteado com um destes livros que prometem resolver as questões mais cabeludas da humanidade. Não entendi o porquê de tal agraciamento que não seria tão trágico se o catatau não tivesse 693 páginas e se a alma amiga não me cobrasse semanalmente por pareceres a respeito de tão “revolucionária” obra.
Em xeque, tive de optar por duas alternativas; arriscar a sinceridade e desgostar profundamente um amigo ou ter uma opinião, mesmo que geral do auto-ajuda. Mesmo ouvindo clamores de virtude retumbando em meus tímpanos como um mantra (Diga a verdade!), preferi ler o sumário, alguns capítulos inteiros, início e fim de outros, etc.
Confesso que a cada frase de efeito lida, nauseava-me a consciência me expondo, como em um estande de livraria, os clássicos que não li. Que naquele momento poderiam estar sendo devorados.
Em um ataque de fúria, arranquei meia dúzia de páginas ao me deparar com a biografia do autor (verdadeiro especialista em mente humana sem sequer ter pisado em uma faculdade de psicologia). Sua foto denotava a figura inorgânica, imaterial de um ser maquiado, pouco abaixo de Deus por pura modéstia e acima de toda a humanidade. Uma mescla de elegância, sabedoria e poderio econômico.
Houve ocasião em que tentei esconder (sem sucesso) o bendito gorducho, mas sempre me passava um engraçadinho a fazer piada do título. Era difícil arranjar desculpa: _ É que vou dar de presente.
Pensando no que diria um terapeuta ao presenciar meu nervosismo, tentei tirar proveito da minha empreitada literária. Riscava, vingativamente, os pontos mais controversos, irrisórios do best-selle. Assim, entre florais, bicarbonato e persistência, venci o meu karma.
Afoito, fui relatar minha cáustica opinião a meu algoz (o que me presenteou), que secamente e de prontidão me respondeu que sou pequeno demais pra entender a alma de um auto-ajuda.
Em xeque, tive de optar por duas alternativas; arriscar a sinceridade e desgostar profundamente um amigo ou ter uma opinião, mesmo que geral do auto-ajuda. Mesmo ouvindo clamores de virtude retumbando em meus tímpanos como um mantra (Diga a verdade!), preferi ler o sumário, alguns capítulos inteiros, início e fim de outros, etc.
Confesso que a cada frase de efeito lida, nauseava-me a consciência me expondo, como em um estande de livraria, os clássicos que não li. Que naquele momento poderiam estar sendo devorados.
Em um ataque de fúria, arranquei meia dúzia de páginas ao me deparar com a biografia do autor (verdadeiro especialista em mente humana sem sequer ter pisado em uma faculdade de psicologia). Sua foto denotava a figura inorgânica, imaterial de um ser maquiado, pouco abaixo de Deus por pura modéstia e acima de toda a humanidade. Uma mescla de elegância, sabedoria e poderio econômico.
Houve ocasião em que tentei esconder (sem sucesso) o bendito gorducho, mas sempre me passava um engraçadinho a fazer piada do título. Era difícil arranjar desculpa: _ É que vou dar de presente.
Pensando no que diria um terapeuta ao presenciar meu nervosismo, tentei tirar proveito da minha empreitada literária. Riscava, vingativamente, os pontos mais controversos, irrisórios do best-selle. Assim, entre florais, bicarbonato e persistência, venci o meu karma.
Afoito, fui relatar minha cáustica opinião a meu algoz (o que me presenteou), que secamente e de prontidão me respondeu que sou pequeno demais pra entender a alma de um auto-ajuda.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Prevenir ou Remediar?
Recentemente, a tragédia provocada pelas chuvas na região serrana do Rio tomou a grande mídia com o estardalhaço costumeiro. Dá Ibope chocar, estarrecer a população. Por mais que nos comova, gostamos sim de nos inteirarmos do sofrimento alheio. Acidentes aéreos, morte de famosos, tufões, etc; são temas que nos prendem à informação, nutrem uma curiosidade sádica.
Este texto poderia questionar a insana repetição de notícias e imagens que a TV aberta regurgita nos olhos e ouvidos curiosos do grande público. Poderia também retratar a ironia de uma Rede Globo faturando milhões por pedir donativos aos necessitados, mas ainda não é nosso objetivo principal.
Sempre que um acontecimento trágico ocorre, principalmente vitimando vidas, é quase automático o ato de se procurar por um responsável, assim como quando nosso time toma um gol. É mais fácil eleger o culpado do que simplesmente engolir uma adversidade. Faz bem ao ego, lustra-se a consciência, fazendo com que pareçamos mais sensíveis e até caridosos.
Deputados, senadores, prefeitos, ex, atuais e até futuros políticos se digladiam, atirando culpa um no outro. Enquanto isso, elegemos ou pelo menos nos esforçamos a eleger “o verdadeiro culpado”. Mas não pense o sorteado que estará nos holofotes da vilania por muito tempo. Seu período de glória maquiavélica dura até o próximo acontecimento midiático; seja as finais de uma novela, do BBB ou mesmo de um campeonato. O deputado incompetente cede lugar ao galã artificial ou ao artilheiro dentucinho.
O leitor acredita que já se deparou com controvérsias por cá? Então ajudem este ignóbil cronista a refletir: por que preocupar-se tanto com o imediatismo do sofrimento provocado pelas tragédias e não se ouvir sequer uma menção (na padaria, no cabeleireiro ou no bar) dos mais de 60% de aumento aos parlamentares? Será que tal dinheiro público não poderia igualmente sanar deficiências dolorosas à população? Não seria mais justo, duradouro e humano contarmos com um SUS de qualidade, com um professorado valorizado ou mesmo com impostos menos abusivos, que permitissem aos pequeno e micro empresários exercerem seu ofício com mais tranquilidade do que simplesmente o envio imediato e emergencial aos necessitados?
Creio ser louvável a atitude de se ajudar o próximo mas o trabalho de prevenção e estruturação de um país seria o mínimo a se exigir de um Brasil que suga cada vez mais sua população com impostos abusivos. Evitar, planejar, amparar e reconstruir uma região submetida (ou passível) a uma catástrofe é papel do Estado. Não é bonito que cidadãos vitimados por uma carga tributária medonha tenham que depender de compatriotas igualmente necessitados.
Também não vejo os moradores da Serra Fluminense como apenas vítimas. Somos todos culpados por eleger todo este “faz-de-conta” que finge nos governar, assim como por nos preocuparmos mais com os galãs e craques do que no mínimo termos conhecimento do que se é votado no congresso. Ao invés de açúcar, água, sal, enviemos livros, jornais, cd’s e revistas ao RJ. No momento, os alimentos de que mais nos necessitamos são a cultura e a informação, para quem sabe podermos no futuro saber pelo menos exigir nossos direitos e deixar de eleger nossos Tiriricas e Romários.
Este texto poderia questionar a insana repetição de notícias e imagens que a TV aberta regurgita nos olhos e ouvidos curiosos do grande público. Poderia também retratar a ironia de uma Rede Globo faturando milhões por pedir donativos aos necessitados, mas ainda não é nosso objetivo principal.
Sempre que um acontecimento trágico ocorre, principalmente vitimando vidas, é quase automático o ato de se procurar por um responsável, assim como quando nosso time toma um gol. É mais fácil eleger o culpado do que simplesmente engolir uma adversidade. Faz bem ao ego, lustra-se a consciência, fazendo com que pareçamos mais sensíveis e até caridosos.
Deputados, senadores, prefeitos, ex, atuais e até futuros políticos se digladiam, atirando culpa um no outro. Enquanto isso, elegemos ou pelo menos nos esforçamos a eleger “o verdadeiro culpado”. Mas não pense o sorteado que estará nos holofotes da vilania por muito tempo. Seu período de glória maquiavélica dura até o próximo acontecimento midiático; seja as finais de uma novela, do BBB ou mesmo de um campeonato. O deputado incompetente cede lugar ao galã artificial ou ao artilheiro dentucinho.
O leitor acredita que já se deparou com controvérsias por cá? Então ajudem este ignóbil cronista a refletir: por que preocupar-se tanto com o imediatismo do sofrimento provocado pelas tragédias e não se ouvir sequer uma menção (na padaria, no cabeleireiro ou no bar) dos mais de 60% de aumento aos parlamentares? Será que tal dinheiro público não poderia igualmente sanar deficiências dolorosas à população? Não seria mais justo, duradouro e humano contarmos com um SUS de qualidade, com um professorado valorizado ou mesmo com impostos menos abusivos, que permitissem aos pequeno e micro empresários exercerem seu ofício com mais tranquilidade do que simplesmente o envio imediato e emergencial aos necessitados?
Creio ser louvável a atitude de se ajudar o próximo mas o trabalho de prevenção e estruturação de um país seria o mínimo a se exigir de um Brasil que suga cada vez mais sua população com impostos abusivos. Evitar, planejar, amparar e reconstruir uma região submetida (ou passível) a uma catástrofe é papel do Estado. Não é bonito que cidadãos vitimados por uma carga tributária medonha tenham que depender de compatriotas igualmente necessitados.
Também não vejo os moradores da Serra Fluminense como apenas vítimas. Somos todos culpados por eleger todo este “faz-de-conta” que finge nos governar, assim como por nos preocuparmos mais com os galãs e craques do que no mínimo termos conhecimento do que se é votado no congresso. Ao invés de açúcar, água, sal, enviemos livros, jornais, cd’s e revistas ao RJ. No momento, os alimentos de que mais nos necessitamos são a cultura e a informação, para quem sabe podermos no futuro saber pelo menos exigir nossos direitos e deixar de eleger nossos Tiriricas e Romários.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Parabéns
A todo eleitor da República Federativa do Brasil
A imagem de Padre Cícero pesava sobre as contas na cômoda corroída e o cinzeiro de pedra assentava a pilha de classificados. Naquele dia, Raimunda mentiu à filha: em noite de aniversário não tem luz acesa. No parabéns, Raimunda tragou um choro amargo e premonitório antes de clicar o rosto alegre e inocente soprando a velinha quebrada.
A imagem de Padre Cícero pesava sobre as contas na cômoda corroída e o cinzeiro de pedra assentava a pilha de classificados. Naquele dia, Raimunda mentiu à filha: em noite de aniversário não tem luz acesa. No parabéns, Raimunda tragou um choro amargo e premonitório antes de clicar o rosto alegre e inocente soprando a velinha quebrada.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
A Tia
Os dias escorriam estanques pela vida alheia e a janela, cúmplice mais fiel da amargura pálida de Tia. Os ponteiros pontilhavam imóveis enquanto as banhas brancas da Tia escorregavam ao parapeito. O operário pontual, a jovem bela, a vizinhança esbelta, ativa e longínqua debochavam da Tia, invisível. O cigarro, a janela amiga, os doces e o tédio reconstituíam a cada dia a rotina clara e calma do desespero.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Indústria Cultural
O fedor exala por entre os tubos da modernidade e a massa podre ferve aos olhos dos bilhões, tudo encanado, igual e previsível como a morte. Enquanto a arte se desdobra, torce, retorce, foge, afiada, os dentes claros da hiena vislumbram em risos torpes, riso em rios. Bilhões de hienas em série e em fila riem pálidas e sem cor da última fagulha de arte e amor.
domingo, 26 de dezembro de 2010
Cana-de -Fel
A velha marmita prata ciganeava azeda por entre a imensidão do mesmo. Uma diversidade homogênea de cerdas furava a cútis enquanto o sol teimava em rasgar a pele, salgado como a lágrima da apatia. Com os pés borbulhando em sangue, avistou o bicho-monstro que chegou do estrangeiro. Vale braço de cinqüenta homem. Panha cana e amontoa. A marmita enfim vai ter descanso.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Galo_2010
Que me perdoem os clichês
Um time de guerreiros e competentes soldados foi-se montando sobre a batuta de um comandante dito como gracioso e lutador, vencedor, digno de toda minha história, uma história em preto e branco. Ainda neste primeiro semestre, vi-me perder através de mais um clássico, talvez pela ânsia de se mostrar o óbvio, os guerreiros sucumbiram perante soldados artificiosos e banais, como de praxe se usa o outro lado da lagoa. Ainda sim houve tempo para em duas partidas executarmos o segundo lugar do estado, Ipatinga se envergonhou de se assistir perante nossos guerreiros, guerreiros em preto e branco, suando amor e ódio nas arquibancadas. O guerreiro-mor, Marques Batista de Abreu, dentro do campo de guerra, despede-se com honra, balançando as redes e comemorando conosco, a nação maior do futebol. Fomos campeões mineiros, o maior vencedor de todos os tempos.
Segundo semestre foi de provações, o comandante não estava para o comando, as atenções se voltavam para ele, para o lustre caprichoso do senhor Luxemburgo e eu, senhores, via-me caindo pela tabela e ocupando lugares de mim desconhecidos e parcamente freqüentados em momentos de crise intensa. Enquanto isso, o rival mordido por perder mais uma vez a Libertadores (competição que reverencia como nenhum outro, estranhamente talvez por autocomprovação), escalava a tabela, alcançando lugar que dele não faz parte, a primeira colocação do campeonato nacional, imaginem que ironia.
Diante de um Fluminense forte, enfim o comando falso, fraco e estranho deixou o campo diante de uma sonora goleada. Sofri, como sofri por estes 5 x 0. O rival azul ostentava-se orgulhoso e cheio de pose, como lhe é de costume, caçoando daquele a quem deve respeito. Toda arrogância será castigada!
Dorival Júnior assume o comando, Renan Oliveira, Renan Ribeiro, Réver, Tardelli e Werley batem no peito a responsabilidade e fazem de cada jogo uma vida. O homem-gol, Obina acaba por destruir a raposa em jogo difícil, pois além de pecarmos por nossos próprios erros, ainda existentes, só vencemos por única competência, pois a arbitragem não ocultou sua tendência azul. “Monte de mijo” erra pênalti inexistente, a vergonha já tirava forças daquele que não a merece.
Daí em diante, desconfiaram do título e como já esperado, saímos do rebaixamento de cabeça erguida, não tendo de perder para o adversário do rival, Coríntians. Vencemos e bonito, mesmo deixando a liderança para o gentio azul – sabíamos que o posto a eles não pertencia. Também sabíamos que aquela derrota de 5x0 para o Flu serviu para mostrar ao rival que de campeão nada possui, que era preciso perder para que Luxa saísse, desse lugar ao Dorival, para que conquistássemos pelo menos a vaga sulamericana e ainda de quebra tirando esta do fraco exército rubro-negro, pelo Luxa comandado.
Neste final de temporada, não me afogo nas lágrimas e desculpas azuis, pois desta influenza já estou vacinado. Cruzeiro não ganha o título, que vai para o Fluminense, em uma diferença de 2 pontos que poderia não existir, caso deste não perdêssemos, conquistamos ao menos a vaga da sulamericana e apesar do Luxa, não rondamos mais o rebaixamento. É assim que se elimina um rival e não perdendo desonrosamente.
domingo, 14 de novembro de 2010
O Coronel, o Predileto e a Paca
Baseado no conto homônimo de Rômulo Resende Reis
Que o Coroné Juvênço era mió que a turma tudo a gente já se dava é por convencido. Tudo dele era mais graúdo que o dos outros memo. Zé da Farmácia e o Doutor Tibúço ficava rabeando, agradando ele. Sou homem disso não, o que eu tenho pra prosear, ponho sentido é na dianteira de caboclo bravo, faqueiro véio e até caxeiro viajante. Dia desses, o Coroné veio com espingarda nova, falou que vinha das Espanha e eu de cara ofereci meu paqueiro, o Predileto. Queria memo é dá outra surra no Coroné e mostrar que nossas garrucha memo dá é conta do recado. O violeiro é que faz a cantiga. Dia da caçada, deixei o homi com a tar da churrasqueta atirá premero que conheço num é de hoje a mira torta do coroné. No momento que as paca desentocaram, o homi mandô brasa e ouvi memo foi a choradera do Predileto. Nunca mais!
Que o Coroné Juvênço era mió que a turma tudo a gente já se dava é por convencido. Tudo dele era mais graúdo que o dos outros memo. Zé da Farmácia e o Doutor Tibúço ficava rabeando, agradando ele. Sou homem disso não, o que eu tenho pra prosear, ponho sentido é na dianteira de caboclo bravo, faqueiro véio e até caxeiro viajante. Dia desses, o Coroné veio com espingarda nova, falou que vinha das Espanha e eu de cara ofereci meu paqueiro, o Predileto. Queria memo é dá outra surra no Coroné e mostrar que nossas garrucha memo dá é conta do recado. O violeiro é que faz a cantiga. Dia da caçada, deixei o homi com a tar da churrasqueta atirá premero que conheço num é de hoje a mira torta do coroné. No momento que as paca desentocaram, o homi mandô brasa e ouvi memo foi a choradera do Predileto. Nunca mais!
sábado, 30 de outubro de 2010
Uma Calculista
D. Mércia era do tipo recatada. 78 anos de mistério e discrição; solteira, solitária, pontual. A vizinhança começou a estranhá-la. Onde já se viu passear pelo bairro após o anoitecer? De certo D. Mércia perdera o juízo. Ainda mais com os boatos de estupro.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Clichê Caipira
Ao Cordel
Nasci na região do São Francisco, rio suntuoso, comendo em cuia. Mainha lavava roupa pra fora mas deixou a gente muito cedo, o que obrigou o pai a cuidar da ninhada sozinho. Aboiava em chuva e seco, noite e sol fervente, pra encher a barriga da gente. Mais novo que fui, tive oportunidade de ir pra capital com o Padrinho e me apeguei nos estudos. Ganhei bolsa em escola boa e conheci cambada adinheirada. Papai veio me ver quando ainda tava na faculdade e morri de vergonha da Aninha e dos colegas verem ele; sujo, magrelo, barbudo, cheirando a luta. Já era juiz na época em que ele tava no hospital e nem deu tempo de fazer o último pedido:
_ Oh Painho, ensina eu a ser matuto?
domingo, 19 de setembro de 2010
Loira Gelada
E o gelo choca
Com o calor do lábio,
As papilas a acolhem,
Mãe saudosa
E seu tráfico fluido
Abranda o medo, arrepia,
Costado de rio,
A vertigem rodopia boa,
Sentencia em si e a gula pula.
Todas as ninfas se transbordam,
Escorrem
Seus lábios me encharcam em off
E o círculo gira afoito
Permanece certo,
Engodo matinal
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Lei da Palmada
Cresci memo é nessas banda de cerrado aqui pros lado do Engenho. Companhia tinha nenhuma não, só essas parede de morro que danava de espiar a gente. Paulinho meu é o mais novo e com as melhoria de hoje, inclinou pros estudo. Dia que gritou com a mãe dele, sapequei-lhe as popa, mas danou de reclamar de mim. Veio gente da escola e dos governo dizer desaforo, que eu na qualidade de pai num podia corrigir Paulinho não. Coça memo ele tomou foi agora com barba na cara. Mas do soldado ninguém reclama não.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Caso de Polícia
Há muito o casamento estava morno; mesmice, filhos, trabalho. O Adelmo Guarda enfim se abriu para a discussão. Queimaduras de segundo grau, ossos da face quebrados, cabelos covardemente arrancados. Polícia, Maria da Penha. Adelmo quis saber o que era fio-terra.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Amor Virtual
E as teclas desfilavam como botos no coração caboclo de Moacyr. Não mais era feio, o carinho ausente resolveu se debruçar. Toda a selva virou Alice. Todos os toques não dados, perfumes não exalados e beijos promessa, latentes, quentes, beijos de Alice. Um falso abraço deveras sentido, mais fiel que o cão Nestor. Iniciar. Desligar. Moacyr já atrasado pro seringal. Alice tinha que ir pra procissão e a igreja mansão aguardava mais uma confissão mineira.
domingo, 25 de julho de 2010
A Melhor Piada do Mundo
Este texto é pra quem acreditaria que o humor seria uma das coisas mais sérias do mundo, se a seriedade fosse propriamente uma virtude. Aliás, não há humorista que em alguma entrevista, despido de sua personagem, não esboce uma carranca taciturna e não engrosse a voz.
Até no campo das letras, onde se imagina velhos barbudos, ranzinzas, com mau hálito e testa franzida, há quem se meta a pesquisar o humor. Dentre eles, o linguista estadunidense Thomas Veatch, que colocaria como parâmetro fundamental à produção do riso a seguinte trinca: NORMALIDADE, VIOLAÇÃO e SIMULATANEIDADE.
Geralmente quando uma piada é anunciada como excelente, perde-se boa chance de se ser bem-sucedido, ou seja, nossa plateia rirá no máximo de nossa tentativa frustrada de aparecer. Assim agirá boa parte dos leitores ao tomar conhecimento que o texto que vos será apresentado foi considerado por um centro de pesquisa da Universidade de Hertfordshire como a melhor piada do mundo:
“Dois camaradas estão caçando. Um deles cai no chão. O outro voa para o celular e liga para um hospital. Explica para a telefonista: _Ele está morto. Que é que eu faço? A moça do hospital: _ Primeiro, certifique-se de que está morto mesmo. Ouvem-se dois estampidos. Volta o primeiro caçador ao telefone: _Tudo bem. Agora, eu faço o quê?”
De acordo com os três elementos do humor, estudados por Veatch, o princípio da normalidade estaria presente na piada acima quando: I. dois amigos saem para caçar juntos (pressupõe-se que há um relativo grau de companheirismo entre eles); II. interpretamos que o caçador estaria preocupado com o companheiro, justificado pelo o uso do termo “voa” que nos mostra o aparente desespero com a morte do amigo; III. a telefonista sugere a certificação do óbito; IV. por ser caçador, o homem tinha uma arma, portanto, seria plausível haver disparos, o que colabora para a concepção de normalidade da história.
A violação, que seria o tempero fundamental para infringir o que aparentemente estaria normal, viria com os tiros disparados pelo caçador. Quando percebemos que um homem atirou no amigo para certificar que este estaria morto, inconscientemente interpretamos que sua preocupação não estaria no bem-estar do colega mas no seu. Sua ansiedade seria pelo fato de estar com um defunto na mata, o que o obrigaria a tomar providências.
Mas para que haja o humor, é fundamental que normalidade e violação ocorram em certo padrão de simultaneidade, ou seja, ao mesmo tempo somos obrigados a interpretar tanto que o caçador estaria preocupado com seu amigo morto quanto que estaria apreensivo ao prever o árduo trabalho que um defunto na mata o daria. Se lemos a história de um homem desesperado com a morte do amigo ou o caso do caçador cuja tarefa seria carregar um corpo na mata, em ambos os casos, a piada se transformaria em drama.
Se um contador de piadas prepara seu ouvinte para a violação ou se não cria o ambiente da normalidade, dificilmente seria bem sucedido em seu ofício, já que para a efetivação da ocorrência do humor, é fundamental que haja tanto um quanto o outro, mas nada disso adiantaria se não houvesse o princípio da simultaneidade.
Por isso, leitor, nada de anunciar que uma piada será extraordinária e desista se algum bêbado de plantão atravessar sua fala antes do desfecho da dita-cuja, isso irá impedir que a normalidade e a violação atuem em paralelo, simultaneamente.
Até no campo das letras, onde se imagina velhos barbudos, ranzinzas, com mau hálito e testa franzida, há quem se meta a pesquisar o humor. Dentre eles, o linguista estadunidense Thomas Veatch, que colocaria como parâmetro fundamental à produção do riso a seguinte trinca: NORMALIDADE, VIOLAÇÃO e SIMULATANEIDADE.
Geralmente quando uma piada é anunciada como excelente, perde-se boa chance de se ser bem-sucedido, ou seja, nossa plateia rirá no máximo de nossa tentativa frustrada de aparecer. Assim agirá boa parte dos leitores ao tomar conhecimento que o texto que vos será apresentado foi considerado por um centro de pesquisa da Universidade de Hertfordshire como a melhor piada do mundo:
“Dois camaradas estão caçando. Um deles cai no chão. O outro voa para o celular e liga para um hospital. Explica para a telefonista: _Ele está morto. Que é que eu faço? A moça do hospital: _ Primeiro, certifique-se de que está morto mesmo. Ouvem-se dois estampidos. Volta o primeiro caçador ao telefone: _Tudo bem. Agora, eu faço o quê?”
De acordo com os três elementos do humor, estudados por Veatch, o princípio da normalidade estaria presente na piada acima quando: I. dois amigos saem para caçar juntos (pressupõe-se que há um relativo grau de companheirismo entre eles); II. interpretamos que o caçador estaria preocupado com o companheiro, justificado pelo o uso do termo “voa” que nos mostra o aparente desespero com a morte do amigo; III. a telefonista sugere a certificação do óbito; IV. por ser caçador, o homem tinha uma arma, portanto, seria plausível haver disparos, o que colabora para a concepção de normalidade da história.
A violação, que seria o tempero fundamental para infringir o que aparentemente estaria normal, viria com os tiros disparados pelo caçador. Quando percebemos que um homem atirou no amigo para certificar que este estaria morto, inconscientemente interpretamos que sua preocupação não estaria no bem-estar do colega mas no seu. Sua ansiedade seria pelo fato de estar com um defunto na mata, o que o obrigaria a tomar providências.
Mas para que haja o humor, é fundamental que normalidade e violação ocorram em certo padrão de simultaneidade, ou seja, ao mesmo tempo somos obrigados a interpretar tanto que o caçador estaria preocupado com seu amigo morto quanto que estaria apreensivo ao prever o árduo trabalho que um defunto na mata o daria. Se lemos a história de um homem desesperado com a morte do amigo ou o caso do caçador cuja tarefa seria carregar um corpo na mata, em ambos os casos, a piada se transformaria em drama.
Se um contador de piadas prepara seu ouvinte para a violação ou se não cria o ambiente da normalidade, dificilmente seria bem sucedido em seu ofício, já que para a efetivação da ocorrência do humor, é fundamental que haja tanto um quanto o outro, mas nada disso adiantaria se não houvesse o princípio da simultaneidade.
Por isso, leitor, nada de anunciar que uma piada será extraordinária e desista se algum bêbado de plantão atravessar sua fala antes do desfecho da dita-cuja, isso irá impedir que a normalidade e a violação atuem em paralelo, simultaneamente.
sábado, 10 de julho de 2010
A Revolta das Cifras
Ariosvaldo era um sujeito comum mas não suportava nada que era considerado legal. Uma de suas maiores implicâncias era com música, era danado para censurar o que estava na moda. Isto foi lhe causando problemas a ponto de se sentir amedrontado.
Costumava conversar com gente mais velha porque se sentia melhor, gente velha é forte para as adversidades. Chegando na casa da avó, percebeu que o som estava alto e a idosa dançava ao som do refrão fácil; mãos nas costas, a outra segurando a bengala e as pernas finas tentando ritmar ao som do batuque. Soube depois que conseguiu virar cantora, fez dupla com Dona Emengarda.
Procurar os amigos seria inútil, hora destas já estariam com os olhos vidrados e balançando as cabecinhas ao som das frases-feitas. A Aninha cantava segurando no peito, pensando no amor que já teria partido, justo ela que namora há 12 anos, mãe-solteira e está quase se casando. Paulo Roberto é o maior cachorrão, não fica duas semanas com a mesma mulher e incompreensivelmente se viu apaixonado, bailando e olhando para o céu imaginando a amada que não tinha (logicamente por escolha e gosto).
Meio sem entender, o desagradável Ariosvaldo procurou a família. Pensou que mesmo o pessoal de casa sendo atingido pela onda musical, entenderiam o caso e dariam a maior força naquele momento delicado. Foi exatamente o que aconteceu. Com muito esforço, a família de Ariosvaldo comprou fones de ouvido e tentava não repetir os refrões. Mas o barulho nas ruas era desesperador, os carros passavam com os sons no último volume e a casa balançava; Ariosvaldo começou a enlouquecer.
A saída seria botar CD pra tocar, mas todos eles haviam sido inacreditavelmente convertidos. Suas seleções de clássicos ordenavam-no a bater nas botas e nas palmas das mãos, Chico Buarque compunha pra Marieta clamando pela reconciliação, João Gilberto fazia clipes em festas de rodeio, montava nos bois e esporava os coitados até sangrar. Mas os bichos também já dançavam mesmo no brete, ansiosos para participarem da festa, sempre em duplas. Bois-de-carro?
Em Brasília, Gil compunha às dúzias, iniciando campanhas. E o povo candango empoeirava as botas, fazendo a terra subir na secura do Planalto Central. Dona Marisa ordenava que as calças do presidente viessem com numeração inferior, seria uma oportunidade e tanto para Luís Inácio, que cantava em nome do povo.
Em meia hora a casa de Ariosvaldo já estava cercada. Inspirado na Revolta da Vacina, o povo exigia o linchamento do rapaz. Com botas finas e chicotes na mão, a população derrubou a porta, avançou afoita e inutilmente desferiu golpes nos ouvidos de Ariosvaldo, que já estava morto bem antes da residência ser invadida.
Costumava conversar com gente mais velha porque se sentia melhor, gente velha é forte para as adversidades. Chegando na casa da avó, percebeu que o som estava alto e a idosa dançava ao som do refrão fácil; mãos nas costas, a outra segurando a bengala e as pernas finas tentando ritmar ao som do batuque. Soube depois que conseguiu virar cantora, fez dupla com Dona Emengarda.
Procurar os amigos seria inútil, hora destas já estariam com os olhos vidrados e balançando as cabecinhas ao som das frases-feitas. A Aninha cantava segurando no peito, pensando no amor que já teria partido, justo ela que namora há 12 anos, mãe-solteira e está quase se casando. Paulo Roberto é o maior cachorrão, não fica duas semanas com a mesma mulher e incompreensivelmente se viu apaixonado, bailando e olhando para o céu imaginando a amada que não tinha (logicamente por escolha e gosto).
Meio sem entender, o desagradável Ariosvaldo procurou a família. Pensou que mesmo o pessoal de casa sendo atingido pela onda musical, entenderiam o caso e dariam a maior força naquele momento delicado. Foi exatamente o que aconteceu. Com muito esforço, a família de Ariosvaldo comprou fones de ouvido e tentava não repetir os refrões. Mas o barulho nas ruas era desesperador, os carros passavam com os sons no último volume e a casa balançava; Ariosvaldo começou a enlouquecer.
A saída seria botar CD pra tocar, mas todos eles haviam sido inacreditavelmente convertidos. Suas seleções de clássicos ordenavam-no a bater nas botas e nas palmas das mãos, Chico Buarque compunha pra Marieta clamando pela reconciliação, João Gilberto fazia clipes em festas de rodeio, montava nos bois e esporava os coitados até sangrar. Mas os bichos também já dançavam mesmo no brete, ansiosos para participarem da festa, sempre em duplas. Bois-de-carro?
Em Brasília, Gil compunha às dúzias, iniciando campanhas. E o povo candango empoeirava as botas, fazendo a terra subir na secura do Planalto Central. Dona Marisa ordenava que as calças do presidente viessem com numeração inferior, seria uma oportunidade e tanto para Luís Inácio, que cantava em nome do povo.
Em meia hora a casa de Ariosvaldo já estava cercada. Inspirado na Revolta da Vacina, o povo exigia o linchamento do rapaz. Com botas finas e chicotes na mão, a população derrubou a porta, avançou afoita e inutilmente desferiu golpes nos ouvidos de Ariosvaldo, que já estava morto bem antes da residência ser invadida.
sábado, 3 de julho de 2010
Ex-Casados
E o ar se impregnava de um lirismo louco, proibido, temperado. Aves de rapina sobrevoavam a alcova, planavam têxteis, lentamente. O uivo dos amantes contagiava a erupção da Terra, desafiando o som, desfiando-se em pecado, tremendo as luzes de motel . Desde o desquite é assim.
domingo, 27 de junho de 2010
Causo Medonho
A Mário Palmério e a todo matuto que se mete com leitura
No curral os aciprestes denunciavam o desassossego e a nelorada olhava comprido pro meio da moita. Era a preciosa, temida, procurada. Cobra-monstro. Verdade a gente só sabe mesmo é quando vê; buliçosa, roliça que nem pneu liso. Diz Paulinho Paiva que teve caso até de carregar menino em beirada de rio. Marrucão Granola foi par pra ela não. Na labuta de perna, bichão enroscou que nem visgo em asa de Sanhaço. Um buazão grosso deu fim na cena triste e o Confins ficou mais abatido nesse dia.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Represados
Depois que a usina veio pra cá, papai pegou mais peixe não. Ficava brabo como o demo e a mamãe falava em mudar pra cidade. O velho dizia que prá lá num voltava não. O que o governo faz num tem volta. O rio mundão parou, estancou, represou, que nem a vida da gente. Na última vez que o papai foi pescar, demorou mais que de costume. Fui procurar ele no rio. O chapéu do papai veio à margem despedir de mim.
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