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domingo, 23 de maio de 2010

Antero

Antero andava até falando sozinho, ciscando sentido nas coisas. Puxava riso da meninada, principalmente quando souberam que foi expulso do salão. Era doido com a Soninha, que quase espancou o coitado por ter entrado lá com a cabeça ensopada. Na última investida de Antero, ela soltou que jamais queria homem pobre e com cabelo desidratado. Ele então quis resolver por partes.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Espera

Sá Firmina costura a solidão desde a morte da mãe. Silenciosa, vive grisalha e macambúzia na Serra do Taboão. Os olhos duros excediam recusa e aflição, esperneavam em vão. Meias longas, pano na cabeça, pele rubra e amarrotada pelo tempo e dor. Seu Moacir tinha enviuvado de véspera. Então Sá Firmina mancou com um pano branco e demodé até à casa da Cida Costureira.

sábado, 17 de abril de 2010

Kitsch

Foi tudo em função de um simples esquecimento de mãos. Na verdade foram pernas, por baixo da mesa de bar. A duração do primeiro beijo só não se comparou à do olhar inquieto e monótono. Nesse caso a noite de insônia nasceu pra não se acabar e acabando jamais acabo o conto mais clichê que nunca escrevi.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Manchetes

23/10/2048
FOLHA DE MINAS

Manchetes:

“Sancionada nova lei que regulamenta a reforma ortográfica. Estão extintos os acentos da língua portuguesa.”



“Manifestação dos cágados, contrários à reforma, provoca morte no sul do estado”

sexta-feira, 26 de março de 2010

A Volta ao Mundo em 80 Anos

Certa vez, no continente africano, ocorreu o encontro anual dos bichos. Como de praxe, todas as espécies foram obrigadas a enviar um representante para que fossem discutidas questões relevantes a toda fauna mundial. Antes mesmo do início do evento, o representante humano foi brutalmente assassinado por ter atirado uma lata de cerveja no Nilo. Um bagre kamikaze envenenou-se e se deu de presente ao bebum. Trágico...ao bagre. Antes do final do encontro, uma curiosa disputa foi travada por quatro bichos; a tartaruga Fíleas, o papagaio Parole, a hiena Sat e o tigre Fodium. O trato foi dar “a volta ao mundo em 80 dias”, em alusão ao escritor homenageado do ano, Júlio Verne (autor do livro de mesmo nome da disputa). E assim aconteceu. Cada bicho foi seguindo seu trajeto à sua maneira. Parole era um sujeito meio avesso à discrição. Não se importava em ser inconveniente e era do tipo que falava o que dava na telha, pois não devia nada a ninguém. Não chegou nem a sair da África. A leoa ficou sabendo o que o empenado relatou a seu respeito. Disse ao leão que ela estava de rolo com o Leopardo. Pobre Parole, virou papinha de filhote. Sat era um camarada não tão veloz, mas muito influente, já que era mestre em fazer a bicharada rir. Geralmente escolhia alguém para Cristo e descia a lenha, ou melhor, a língua. O som de suas gargalhadas ecoava savana afora e sua vítima preferida era o hipopótamo. Sempre juntava a macacada para rachar de rir do coitado, sua obesidade virava motivo de chacota na África. Por ironia do destino, no primeiro mar que precisou atravessar, foi convidado a aceitar uma carona da baleia, que já sabendo do drama do hipopótamo, resolveu se vingar. Já em alto mar, o gigante dos mares deu uma dançadinha e derrubou Sat de suas costas. E então gritou para o sorridente defunto: obesidade não é piada. Fodium era cheio de si, daquele tipo que se acha muito superior do que realmente é. Aceitou o desafio por não aguentar mais as pressões do mundo felino, cansado de ser um gato de terceira, tendo de acatar ordens do senhor leão. Como nos humanos, sempre que algum bicho se sente inferiorizado, ele tenta se mostrar mais forte. Seria mamata vencer aquele vira-latas fedorento, a cocota faladeira e o morto-vivo se no meio da Ámerica não houvesse Iara Tiger, uma bela e suculenta sereia que o atraiu para as profundezas do Amazonas. Coitado, morreu achando que Iara salvaria tão bela e espadaúda criatura. E quanto a Fíleas? Exatamente 80 anos depois a tartaruga chega novamente à África, recebida com muitos aplausos e festa. Quando indagada pela senhora coruja como conseguiu tal feito, embora atrasado, Fíleas respondeu que para isso precisou viver quase um século e que o segredo está em cuidar apenas da própria vida.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Casca

E ela desfilava de botas longas e roupa nua. Seu cheiro regava a noite lenta, pingava excesso. Olhava austera e com desdém a classe média, chutava em nãos. Descartava sem usar o verbo. Em seu rosto a delicadeza dos traços, alvejados pela inveja. Mas naquela noite o blush se rendeu às lágrimas. No banco traseiro do carro oficial havia um bolo caseiro com cheiro de mãe.

domingo, 14 de março de 2010

Pitty comeu rã

Há muito a internet tem sofrido sensível mudança em seu conteúdo. Esta afirmação poderia parecer menos óbvia se especificássemos que tipo de mudança é esta e como a mesma está sendo processada. Houve um tempo em que a rede foi vista como uma espécie de enciclopédia virtual, ou seja, por lá fazíamos nossas mais específicas consultas, abismávamo-nos a cada dia com as inovações quantitativas e qualitativas de seu conteúdo. Não cometeríamos a subversão de afirmar que as pesquisas virtuais não mais existem e muito menos que diminuíram quando o que ocorreu foi a inclusão de uma infinidade de redatores (autores) então anônimos. Blogs, fotologs, Orkut, twitter, etc são apenas alguns exemplos de meios em que se publicam os mais diversos assuntos. O simples consultar a cada dia compete mais com o criar. A questão é: o que se cria? Seríamos absurdamente anacrônicos se afirmássemos que a criação na internet é algo negativo. Uma quantidade imensa de intelectuais, incluindo jornalistas, psicólogos, professores e até escritores publicam e são lidos graças à rede. O problema é que há uma massa de informações inúteis que nem sempre são facilmente evitadas ou pelo menos separadas do que é bom. Grande parte do que se joga na net é fatalmente dispensável e há uma explicação para as exclamativas reações dos leitores – “o que é que eu tenho com isso?”. A lingüística justifica tal postura indignada a partir da existência de um tipo textual denominado “expositivo” ou “informativo” e sua função é fazer com que o leitor adquira um conhecimento que até então não possuía. Embora isto não nos permita a falar para alguém tudo de que sabemos. Qual seria a função de afirmar que a cantora Pitty comeu rã pela primeira vez a alguém que não a conhece intimamente ou que não possui a mais ávida curiosidade sobre sua vida particular? Inconscientemente, quando lemos um texto ou ouvimos uma mensagem, criamos expectativas quanto a isto. Ou seja, ao deparar-nos com um tipo textual informativo, esperamos por uma informação com o mínimo de importância para nós. A transmissão destas informações deve seguir um critério denominado “informatividade”, ou seja, só falamos o que acharmos necessário para a pessoa e para o contexto em questão, esforçando-nos ao máximo para realmente sermos relevantes. Portanto, quando nos deparamos com a mensagem; “Hoje acordei de mau humor”, sem pelo menos convivermos com o autor, somos levados a achar que estamos recebendo um conteúdo desnecessário. O grande objetivo de nossa comunicação é o ouvinte (leitor). Assim, quanto mais nos adequarmos ao contexto e a quem recebe nossas informações, para que nossos textos tenham o mínimo de relevância, mais eficiente será nossa linguagem e com mais clareza e pertinência poderão ser recebidas nossas ideias.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Tchau

O nome, desconhecido por omissão e gosto. 70 e poucos anos e uso diário da mesma roupa, embora limpa. Sapato baixinho, meia pela canela e o vestidinho estampado, cheio de vida. Os olhos, inertes como a luz, sem luz. O cabelo, indefectível. Impecavelmente penteados, dançavam brancos em dia de vento. Habitava a rodoviária havia alguns anos. Chegava sempre no mesmo horário, costurando o tédio e mascando o ócio. Nunca sorria, nunca falava. No último dia em que foi vista, pagou uma passagem mesmo sem pegar o ônibus.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Um Pára-quedista

Herdara a fábrica de pára-quedas do tio. Esperança de fuga da vida proletária. A contragosto ia armando as cordas quando um amigo do Tio Tales se aproximou. Bombardeou-o de dicas: pára-quedista só erra uma vez. Disse e se foi.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Primeiro Beijo

O juízo deslizava por entre os dedos como os dedos de quem provoca. O conselho mamãe perturbava como o gelo. O olho torpe da malícia se esfregava, se atirava e chupava o rosto da menina. As línguas transaram, desajeitadas, primeiro voo. O perfume pecado se mesclou ao suor, clareando o cheiro do temor. Chegou em casa afanando a gilete do papai ausente. Inútil o gelo na ferida: joystick já se sujou, todo delator.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

P/Exportação

Não entendeu quando foi retirado dos outros. Nova casa é arejada, no Caminho conheceu até o sol. Patinhas não sustentavam o corpo suíno e desproporcional, nutrido a engodo e exagero. Mal nasceu e já se tornou adulto, sem o gosto do leite. Nunca mais viu mamãe. Estranhamente conheceu o paladar. Galera não vai acreditar na delícia dos abacaxis. Num átimo, a mercadoria foi pendurada pela perninha, confundindo-se com as outras. Imóvel, permaneceu com a feição leitão que lhe amputaram.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Casamento

Os olhinhos velozes deslizavam o diário, como se ainda fossem virgens. O papel de bala precisava a data daquele encontro, cheio de rugas. Ela então fitava o costado das mãos. O cheiro já inexistente do namorado insistia em impregnar. Ouvindo o nome berrado, mancou até a cômoda e se escondeu com o diário.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Sedução

Carros de som competiam indecência enquanto as damas do funk ostentavam suas coxas e cavas; cabelos verdes, todos verdes. Calcinhas à mostra beijavam o asfalto urinado. O refrão insano vidrava seus olhos, tremelicando os corpos molhados, suados, salgados, sem alma. Por um ouvido, música ridícula, por outro, ejaculação da mente. A pinga barata já maquiava a vista faminta do sambista quando se lembrou da esposa. Pisando em ovos, abriu a porta. Teresa de roupão era mais nua que a própria nudez. Chapéu coco pra um lado, a calça branca pro outro. Enfim o sambista desejou.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Os Chatos

Existe uma figura que sempre me chamou a atenção (será que por alguma semelhança?) em muitos ambientes em que frequento. Geralmente este tipo costuma ser evitado, costuma repelir, chamam-no até de gambá, desmancha-rodinha, etc; (auto?) homenagem ao chato?
Seria a chatice só um estado de espírito? O sujeito estaria chato? Colocaria o dedão no chatômetro pra medir seu grau de chateza do dia? Se passasse do nível 7 seria proibido de sair de casa, com pena de multa se o fizesse.
Tem tipo diferente de chato? Aquele que conversa te abraçando e com o rosto colado no seu (geralmente com mau hálito). Tem o chato sabe-tudo, especialista de assuntos mais específicos, ninguém é tão hábil motorista do que ele, jamais nasceu mortal tão entendido de mulher, é o campeão de conhecimentos gerais. O chato religioso não te deixa falar e é capaz de afugentar até Zeus com 3 minutos de prosa, este convence Gandhi a matar, judeu a comer porco, satanista a fazer caridade, etc, só para não tê-lo por perto.
Todo chato que se preza, sopra fumaça de cigarro na sua cara, costuma ter uma quedinha por escândalo, pega microfone em festa e quando compra carro, mete som potente fazendo questão que todo mundo escute (comumente tocando Chico Buarque, Villa-Lobos ou mesmo um Tchaikovsky básico, né?).
Na mídia tem chato? Aquele que manda beijinho e ainda tomba a cabecinha. Faz um gol e vira Deus, olha pra tela e te enche a cuca de clichê (geralmente iniciados em “eu acho”). Ainda bem que tem uma galera simpática: Faustão, Kalil, Perrela, Ana Maria Braga, Padre Marcelo e claro, a rainha Meneguel. É tudo gente de primeiríssima, uma companhia e tanto pra uma mesa de bar, por exemplo.
Chato te para na rua, não te larga enquanto sua pressão não chega a níveis catastróficos e ainda pega na sua mão impedindo a fuga. Conversa é dando tapa, te lembra de ex (na frente da atual, claro), te dá lição de moral (comumente citando exemplos da própria vida), e ainda por cima pega seu email pra te enviar uma porrada de corrente e mensagens em massa. Manda tudo quanto é bonequinho, bichinho e letrinha pra você clicar.
Mas nenhum chato supera o cronista. É o cara que fica com a caneta na mão perdendo o tempo dele e do leitor pra falar de uma coisa que todos nós temos um pouquinho. Um brinde a todos os chatos (assumidos ou no armário).

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Vingança

Doutor Moreira era homem forte. Segundo mandato em Brasília. Carlinha minha trabalhava na casa dele e mês passado chegou amuada e chorosa no barraco. Menina bonita dessas pode chorar não. Ainda mais que é da gente. Rapazinho do Doutor Moreira começou atentar Carlinha em casa e eu fui lá tirar satisfação. Até o barraco Doutor tirou de nós. Fui eu mais o pequenininho dormir em cima de cova; morto a vista, ar defunto, bicho a revelia. Na mesma época passei a vender churrasquinho pertinho da escola do rapazinho.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Prosperação

A porta aberta foi a última saída; quanta dúvida, anemia, desespero. Os berros, flores, luzes a enchiam de uma estranha esperança. De que valia dez por cento de sangue mensal?seu plasma se multiplicava às vãs aleluias daqueles encontros. Vestidos longos sussurravam contraste sobre os corpos queimados de periferia. Aleluia! Gritava o homem de terno, esguichando um sorriso salvador por entre os caninos.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Companhia e Cia

Os edifícios de centro de cidade falsamente o abraçavam e o faziam incompreensivelmente se sentir mais só. O gosto do concreto se misturava à secura da boca, que recebia enojada o sal do suor. Os transeuntes denunciavam seu abandono, quicava, esbarrava almejando toque. Depois via os gestos das bocas que o praguejavam. Vendedores surgiam, vendedoras propostas, todas lindas, de vidro. Até que quase ficticiamente aparecem três ex-colegas da companhia e o arrastam para o fast-food mais próximo. Os sons de seus lábios se misturavam, seus olhos atiravam fúria e questionavam a carteira vazia. Sozinho, viu-se acompanhado e concluiu que o ninho da solidão deve ser a copa de uma megalópole.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Casos de Amor

A quem imagin(va) o amor como essa
clara coisa , nítida. O amor ofusca

Estela sempre foi minha melhor amiga. Mesmo ejaculando implicância sobre meu então namorado, nunca rompemos. Mal sabíamos que meu filho e a filha dela se tornariam tão íntimos; ela mãe solteira e eu casada com meu único namorado.
A roda viva da vida é rota de olaria. No dia em que a menina quebrou o pé, aquele com quem ela tanto implicava virou um leão, tal qual desejo no alvo, e nem se preocupou em nos deixar naquele acampamento hostil. Tudo pra acudir a pequena. Estela me olhou entre temerosa e envergonhada. O mal se paga com o bem.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Poema de Natal

Devorar pernis transeuntes
Escarrar na barba do Noel
Que aperte o off o deus menino
E se cale o jingle bell

Ho ho hoje é dia de ironia
Em transe transam as máscaras
O saco rubro se esvazia com as almas
E se enche de música ridícula

É tempo de esperança sem juros
Que liquida e se divide
Engodo para a consciência...
Que as rolhas se esvoacem em glória
E que haja paciência!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Cifrão

A chuva e o vento atordoavam o velho banguela. A porta tava aberta, gente à revelia. Cambaleando, exalava cachaça barata.
_Veja, meu povo. É a obra do capeta nesse senhor.
_Cambeta é a rapariga que lhe pariu, mauricinho de merda. E senhor é um camarada que tá longe desse lugar vazio, dizia arreganhando as gengivas.
_Irmão, dou-lhe o terno que me cobre, em nome do Senhor. Aleluia!!!!
Gargalhando e atirando moeda no chão, o maltrapilho então vira pra morena tentação e anuncia que o melhor da vida se faz é pelado